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26/06/2012
Sobre os Anjos Caídos: Sua Existência, Natureza e Atuação
I - EXISTÊNCIA DOS ANJOS CAÍDOS
Os materialistas e os racionalistas, combatendo a existência de espíritos, pelo mesmo fato, negam a existência do demônio. Dizem que os fenômenos que se dão no mundo e na humanidade eram antigamente atribuídos a Deus, agindo pelo ministério de espíritos, anjos ou demônios. Hoje, dizem, a ciência explica por causas estes fenômenos, e por isso, devem ser rejeitados, como inúteis e anti-filosóficos, a existência e a intervenção dos espíritos que nunca existiram.
Pois nós admitimos a existência de espíritos bons e maus, baseados na Sagrada Escritura, na história, na Tradição universal, e nos fatos, como veremos mais adiante, e também porque este dogma, para nós católicos da tradição, além de ser uma verdade de fé, em lugar de ser anti-filosófico, parece-nos muito conforme aos princípios mais elevados da razão.
Por quê não haveria substâncias meramente espirituais? Por quê acima do corpo, não haveria um mundo mais alto, um mundo superior, composto de espíritos puros, de inteligências exímias? Por quê o homem, com sua dupla natureza espiritual e material, seria o último elo da corrente dos seres criados? Platão, a quem os próprios racionalistas chamam de divino, não duvidava da existência de espíritos superiores aos homens e dependentes, como ele, do Deus supremo.
Diz São Tómas de Aquino ''que a perfeição do Universo exige que haja criaturas meramente espirituais, para que a lacuna, que põe entre a natureza humana e a natureza divina uma distância incomensurável, seja ocupada, preenchida por seres de uma natureza que participe da natureza Divina, sob o ponto de vista da espiritualidade, e da natureza humana, sob o ponto de vista da temporalidade, como a natureza humana participa da natureza espiritual pela alma e da natureza animal pelo corpo''. Pois, essas criaturas superiores aos homens, inferiores a Deus, são aqueles que chamamos de anjos; anjos bons ou anjos maus. E assim que se acha esboçada a admirável escada dos seres: Deus, anjo, homem, animal, planta e mineral. ''O Deus, exclama Bossuet, quem duvida de que possais criar espíritos sem corpo! Será preciso ter corpo para compreender, para amar, para ser feliz? Vós, que sois um Espirito puro, não sois imaterial e incorporal? A inteligência e o amor não são operações espirituais e imateriais, que se podem exercerem sem ser unido a um corpo? Quem duvida que possas criar inteligências dessa sorte?'' - Quando o homem, diz Lammenais, se considera tal qual é, relegado em um ponto imperceptível do Universo, átomo rastejando sobre outro átomo, fraco, ignorante, podemos apenas pensar e agir, sem encontrar logo o limite de seu pensamento e de sua ação, alguma coisa nele repugna supor que seja o mais inteligente, o mais poderoso, o mais perfeito dos seres criados. A consciência do gênero humano repele não menos invencivelmente que a reflexão filosófica, esta hipótese orgulhosa. Nosso insignificante planeta não é a morada exclusiva do pensamento, e outros seres, nossos precursores na criação, nos superam provavelmente e muito, em poder e inteligência''.
O que a razão nos faz presumir, descobrindo a perfeita conveniência das substâncias meramente espirituais, a revelação, a história, os fatos o afirmam com a inteira certeza.
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II - NATUREZA DOS ANJOS CAÍDOS:
Duas palavras bastam para conhecer o demônio; é um anojo decaido. É um anjo - e eis a causa de sua superioridade sobre os homens ; é decaido - eis a explicação de sua maleficência.
1° - O demônio é um anjo. Como o homem, ele tem a faculdade de pensar, de compreender e de querer, mas possui esta faculdade em grau muito superior à do homem. Sua razão é mais segura, suas luzes terrivelmente mais vivas, seus conhecimentos mais vastos, sua vontade mais forte. Não precisa, como nós, de estudar, nem de raciocinar para compreender as coisas. Sua inteligência penetra mesmo os acontecimentos futuros, que tem suas causas necessárias na natureza, por exemplo, uma tempestade, um terremoto etc. Quanto aos acontecimentos que dependem da vontade de Deus ou do homem, só pode conjeturá-los. Deus nem mesmo quis que ele conhecesse nossos pensamentos e desejos e desejos inteiramente íntimos.
Satanás, além de inteligentíssimo, é muito poderoso, porque, ontologicamente, depois da queda, ficou o mesmo que antes. É certo que os demônios podem produzir muitas coisas que superam a força do homem. Basta abrir o livro de Jó para ver que percorrem a terra com uma velocidade que sobrepuja todas as velocidades; que agitam os ventos e produzem tempestades tão violentas que derrubam casas, sepultando os habitantes sob as suas ruínas; que ferem os corpos de doenças e chagas, fazem descer do céu o fogo e o raio, como o fizeram para Jó, destruindo pelas chamas seus rebanhos; foi o demônio que mandou os Sabeus(1) atacarem e matarem seus criados. Satanás pode mover os corpos, transportá-los pelos ares de um lugar para o outro, como o fez com o Mago Simão, ja narramos aqui esse episódio em outro post, como também vemos no Evangelho transportar O Salvador do deserto à cidade santa e colocá-lo no pináculo do Templo. No Evangelho, Nosso Senhor revela a Simão Pedro que Satanás reclamou os apóstolos para joeirá-los como trigo, alusão ao triunfo dos maus, que terá lugar durante a Paixão, terrificando os Apóstolos e causando sua defecção (Luc. XXII, 31).
2° - Satanás é um anjo decaído. Deus criou os anjos em um estado de justiça, isto é, isentos de qualquer mancha de pecado; em um estado de santidade, isto é, ornados de graça e, enfim, destinados à felicidade do Céu.
Todos , porém, não perseveraram neste estado. Lúcifer, o mais belo dos anjos, revoltou-se contra o Altíssimo e arrastou na revolta milhares de outros. Mas o Arcanjo São Miguel, com os anjos fiéis, que eram o maior número, expulsaram-nos do Paraiso e os precipitaram no inferno. Não se sabe qual o numero dos anjos decaídos, talvez a terça parte, conforme uma palavra do Apocalipse que diz: ''O dragão arrastou com sua cauda a terça parte das estrelas do céu.''
3° - Qual foi a natureza do pecado dos Anjos? Há duas opiniões principais. Pesam que foi o orgulho, uma vã complacência em si próprios, que os levou a quererem ser semelhantes a Deus. Esta opinião tem seu fundamento na palavra de São Miguel exclamando, ao investir contra os anjos: ''Quem é igual a Deus?'' Grandes teólogos pensam que quando Deus revelou aos anjos o mistério da Encarnação do Filho de Deus, eles se revoltaram, ao pensar que se veriam obrigados a adorar o Homem-Deus, e a reconhecer a Santíssima Virgem Maria como a sua soberana.
4° - Seja como for o castigo foi repentino e terrível. Precipitados do alto do céu no fundo do inferno, de anjos, feito demônios; em lugar de deslumbre e beleza, horrível feldade; em lugar de amor, ódio; em vez de beatitude celeste, a maldição de Deus, eis o que ganharam. Sofrem a pena do dano e do fogo, por toda a eternidade. ''Como caíste do céu, o astro brilhante!" exclama estupefato o profeta Isaías (Isaias, XIV, 12). De agora em diante, sua ocupação será lutarem contra Deus e contra os homens. Contra Deus, para roubar-lhe a sua glória e, contra os homens, para impedi-los de ocuparem no céu o trono que eles perderam. Infatigável em seu ódio e inveja, Satanás enche o ar, com a multidão de seus companheiros que, na frase da Igreja, ''andam pelo mundo para perder as almas''.
5° - Mas porque Deus permites que esses anjos decaídos nos tentem? Deus permite as tentações por desígnios dignos de sua sabedoria. É para nos provar, santificar e coroar. Quer provar-nos e, por meio da provação, mostrar-nos o que somos e o que podemos. A provação com efeito, nos faz ver a nossa própria fraqueza e a necessidade do socorro Divino, manifesta a covardia dos maus, faz brilhar a virtude dos bons. Deus permite a tentação para nos santificar, para purificar-nos ''como o ouro na fornalha'' (Sab. III, 6), para exercer-nos na virtude. A virtude solida se adquire pelo exercício.
Deus, enfim permite a tentação para nos coroar, isto é, para nos fazer conquistar um trono mais alto e brilhante. A tentação é ocasião de merecimentos: ''Ninguém, diz São Paulo, será coroado se não combater segundo as regras''.(II Tim., II, 2-5).
Tentar seduzir os homens para arrastá-los consigo para o abismo, é a ocupação única do demônio, que por isso, merece o nome de tentador. Ele tem muitos outros nomes como, Satanás, que significa sedutor, diabo, Lúcifer - que faz alusão ao seu estado primitivo, isto é portador da luz.
6° - Como tem diversos nomes, tem diversas formas para manifestar-se. O sábio Cardeal Bona, as enumera: ''Como os bons anjos, os maus espíritos revestem, as vezes, corpos para mais facilmente enganar os sentidos por meio dos seus prestígios. Mas o que os anjos bons fazem para a nossa salvação, eles o fazem para nos perder. As formas sobre as quais uns e outros aparecem não são menos diferentes. Os anjos não costumam empregar senão a forma humana; os demônios, porém usam formas quer de homens, quer de animais. Evitam entretanto, adotar a forma de pomba e de cordeiro, não só porque são símbolos místicos do Espirito Santo, ma sainda porque estes animais não tem fel, não convém as violências ordinárias de Satanás. Usam não somente a semelhança dos brutos como também fingem fantasmas desconhecidos e monstruosos para incutir terror. Consta também, por experiência, que tomam as vezes, corpos mortos, cadáveres de réprobos, porque não e crivel que Deus permita que possam servir-se dos corpos dos justos. Transformam-se ainda em aparência de pessoas vivas; oferecem aos olhos ou à imaginação espectros, simulacros de pessoas ou coisas. Enfim, como os poetas o contam de Proteu, eles tomam toda a espécie de forma para enganar e perder os pobres mortais. Felizmente como o diz Santo Agostinho, ''os demônios não podem desenvolver suas forças naturais (que são imensas) senão segundo a permissão de Deus, cujos juízos na maioria nos são ocultos, mas que são todos justos'' (De Disc. Spir. Pág 308.).
Eis Satanás, tal qual a Sagrada Escritura, a teologia e a tradição o representam. A existência do demônio é uma realidade, como já vimos no post anterior. Pensemos bem nisto caros leitores do Ipsa. A célebre convertida Eva Lavallière, um dia, em palestra com o sacerdote que foi o instrumento de Deus na sua conversão, perguntou:
- Existe o diabo?
- Cuidado, diz o padre, de modo brusco, pois a Sra. pode muito bem encontrar-se com ele.
A artista refletiu, meditou e voltou a Deus, trocando o teatro pelo convento. Ela poderia dizer, como Adolfo Retté, que foi do diabo para Deus.
(1) Descendentes de Seba (Gn 10:7); africanos (Is 43:3). Eram “homens de alta estatura” e mercadores (Is 45:14). Foi predita a sua conversão ao Senhor (Sl 72:10). Esta palavra, em Ez 23:42, foi traduzida por “beberrões”. Outra tribo, aparentemente dada à guerra, é mencionada em Jb 1:15.
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Fonte: Apostolado Tradição

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